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Morreu Chris Cornell, a voz mais virtuosa do grunge


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Cobra

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Morreu Chris Cornell, a voz mais virtuosa do grunge

 

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Figura central da geração que transformou Seattle, durante meia década, no epicentro das atenções e consumos musicais mundiais, o cantor dos Soundgarden tinha subido a palco horas antes em Detroit.

A voz dos Soundgarden, Audioslave e Temple of the Dog, Chris Cornell, morreu quarta-feira à noite, em Detroit, aos 52 anos. Um dos vocalistas de maior amplitude do rock das últimas décadas, o músico foi uma figura central da geração que centrou em Seattle as atenções do mundo no início da década de 1990. "Incrivelmente talentoso; incrivelmente jovem", escreveu sobre ele o guitarrista dos Led Zepellin, Jimmy Page, dizendo que a sua falta será também "incrivelmente" sentida.

A notícia da sua morte foi confirmada à Associated Press pelo agente do cantor e guitarrista. "Repentina e inesperada", supreendeu familiares e amigos, suscitando reacções de pesar de vários quadrantes do meio musical, do rapper Chuck D aos rockers Joe Perry e Billy Idol. Na sua declaração, o agente do músico acrescenta que a família irá trabalhar em conjunto com a equipa de médica de investigação para determinar a causa da morte. Os familiares pedem agora respeito pela sua privacidade.

A banda de rock norte-americana formada em 1984, em Seattle, Washington, tinha subido ao palco horas antes, em Detroit. Os Soundgarden marcaram o capítulo da história da música forjado no Noroeste dos EUA no final da década de 1980 e no início da década de 1990 ao lado de bandas como Nirvana, Alice in Chains e Pearl Jam. Só nos Estados Unidos, a banda vendeu mais de dez milhões de álbuns. Foram nomeados para nove Grammy, tendo recebido dois deles. "Desde que aprendi a tocar bateria aos 16 anos, já estava fora da escola", descreveu no livro Everybody Loves Our Town, de Mark Yarm. Seguir-se-iam a guitarra, a composição, várias bandas e uma paixão pelos Beatles que vinha da infância.

Os Soundgarden foram, de facto, fundamentais na emergência daquilo que viríamos a conhecer como grunge, o movimento rock que marcou decisivamente os anos 1990. Não o foram apenas pelo facto de o som que preservaram nos primeiros álbuns, como o EP Screaming Life, de 1987, ou o álbum de estreia, Ultramega OK, do ano seguinte, mostrar a combinação da atitude do punk hardcore com o peso dos Black Sabbath e a corrosão dos Stooges que viria a tornar-se marca do género. A génese da Sub Pop, a editora que foi casa e símbolo do grunge, encontra-se no momento em que um radialista, Jonathan Poneman, aborda a banda no final de um concerto. Estava tão entusiasmado com o que vira que queria financiar ele mesmo a edição de um disco. Os Soundgarden recomendaram-lhe que unisse esforços a Bruce Pavitt, amigo da banda e entusiasta da cena rock a fervilhar à época em Seattle. Assim nasceu a editora que, mais tarde, revelaria os Nirvana. Uma das razões para Kurt Cobain e Kris Novoselic se juntarem à Sub Pop foi, precisamente, esta ter no seu catálogo os Soundgarden – Screaming Life e Fopp foram os EP que ali editaram.

Heróis da cena underground de Seattle, tornar-se-iam porta-estandartes do movimento mundo fora depois de assinarem pela multinacional A&M, o que lhes valeu, como habitualmente à época, muitas críticas dos fãs iniciais, que consideravam a chegada a uma grande editora uma traição ao espírito punk que os movia. Os álbuns Louder Than Love e, principalmente, Badmotorfinger, editado em 1991 e que acabaria por ficar no sombra do furacão Nevermind, o disco que catapultou os Nirvana para o estrelato, mostraram, porém, uma banda que no som e na temática representava bem a fúria, as angústias e a atitude insurrecta do rock associado ao cenário grunge – Jesus Christ pose, o primeiro single de Badmotorfinger, que a banda apresentou como crítica a quem se apropriava indevidamente da religião para propósitos egoístas, foi censurado na MTV e valeu à banda muitas críticas dos sectores mais conservadores da sociedade americana, que a consideravam uma canção anti-cristã.

“What I look forward to the most...is the camaraderie. It’s what we missed when we weren’t a band.” - @chriscornell pic.twitter.com/yMPqJefoGo

— Soundgarden (@soundgarden) May 16, 2017

À descarga eléctrica das canções, ora furiosa, ora exibindo os movimentos compassados e o tom grave dos supracitados Black Sabbath, Chris Cornell, que entrara nos Soundgarden como baterista/vocalista, sobrepunha o seu grito ondulante capaz de se passear por quatro oitavas, dando-lhes um carácter dramático que se tornou uma das marcas mais reconhecidas dos Soundgarden e que o elevou a voz mais virtuosa entre as que fizeram o rock da sua geração. Recorrendo a dois dos seus heróis, podemos dizer que, nele, se unia o dramatismo bombástico de Robert Plant com a urgência estridente de Ozzy Osborne.

Juntando-se a uns Guns N'Roses no auge da popularidade, quando actuaram enquanto banda de abertura da digressão de Use Your Illusion Tour, iniciada em 1991, os Soundgarden começaram a alargar o público da sua música bem além comunidade independente que os seguia desde a formação na década de 1980. Em 1994, tornar-se-iam definitivamente estrelas globais com a edição de Superunknown, considerado um dos álbuns clássicos do seu tempo.

SO SO stunned to hear about Chris Cornell! Such a terrible and sad loss! Thinking of his family tonight! RIP

— Dave Navarro (@DaveNavarro) May 18, 2017

Oh man. Sad to hear of the passing of Chris Cornell.

— Elijah Wood (@elijahwood) May 18, 2017

Sobre o papel no movimento que os próprios protagonistas rejeitavam como rótulo, Cornell tinha uma perspectiva sóbria: "Não éramos tão parte disso como muitas outras bandas. Ninguém nos conhecia, não íamos a festas. Mas ao mesmo tempo, quando muitas outras bandas de Seattle começaram a ter sucesso e atenção, ficámos muito orgulhosos de fazer parte disso", disse à Rolling Stone em 1994, meses depois da morte de Cobain e em pleno sucesso de Superunknown.

Soundgarden | 5.17.17 pic.twitter.com/uBC6rSXWg6

— Fox Theatre Detroit (@FoxTheatreDet) May 18, 2017

Depois de se separarem em 1997, os elementos da banda fundada em 1984 voltaram a reunir-se em 2010 e estavam actualmente em digressão pelos EUA, com uma data agendada para amanhã, 20 de Maio, em Columbus, por exemplo. Com os Temple of The Dog, a banda de tributo erguida em Seattle em 1990 na esteira da morte por overdose do seu grande amigo Andy Wood, vocalista dos Mother Love Bone, esteve em digressão no final do ano passado pelos EUA – foi a primeira e única tour desse grupo. Completado por Stone Gossard e Jeff Ament (que eram parte dos Mother Love Bone), Mike McCready e Matt Cameron, seu companheiro de bateria nos Soundgarden e actualmente membro dos Pearl Jam, o projecto Temple of the Dog serviu de base a um dos nomes mais conhecidos desse movimento musical que nunca existiu, precisamente os Pearl Jam.

Cornell foi, em certa medida, e numa cidade com diferentes estilos musicais e éticas artísticas, um elo de ligação entre diferentes bandas. Até 2004 foi casado com Susan Silver, manager da sua banda mas também dos Alice in Chains – cujo vocalista, Layne Staley, se junta a ele, a Wood, ao incontornável Kurt Cobain e a Scott Weiland dos Stone Temple Pilots no grupo dos frontmen dos 90s entretanto falecidos. "É difícil não ser um pouco amargo", admitia já à Rolling Stone em 1994, sobre o balanço que fazia desse fenómeno do rock de Seattle. "Perdemos bons amigos neste processo."

Foi no pico do chamado grunge, e só uma década após a sua criação, que os Soundgarden atingiram o seu zénite comercial com o supracitado Superunknown (1994), de onde saíram os seus dois singles premiados pela indústria norte-americana, Black hole sun e Spoonman. Cornell assinou seis álbuns com os Soundgarden como compositor e vocalista. A ruptura chegou em 1997, numa altura de consumo assumidamente descontrolado de álcool.

 

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